Cor Impúrpura

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
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Um certo dia, passava das duas da madrugada, um cidadão batia consecutivamente palmas a minha porta, acordando-me. Era um homem de cor, traços grosseiros, lábio inferior cobrindo parte do queixo e um certo ar de preocupação em seu semblante, vestido numa casaco jeans surrado, montando uma velha bicicleta. Viera pedir para eu como farmacista, fosse aferir a pressão de um cliente de meu estabelecimento comercial, por nome de José, que não estava passando bem.
- Perguntei:
- Onde mora José? O negro respondeu-me:
- No bairro de Santa Luzia. A dúvida angustiou-me.
- Ir ou não ir?
Resolvi isentar-me daquela situação negando aquele pedido; além da distância, seria perigoso, chovia torrencialmente, seria perigoso, poderia ser armação, até mesmo um assalto, além do mais, meu filho caçula Pablo Henrique, recém nascido, estava com uma virose gripal e se sentia incomodado, febril. Momentaneamente pensei de uma só vez em todos os aspectos contrários aquela situação. Dificultei o máximo que pude, já estava fechando a porta, quando ouvi o negro murmurar: "Pelo amor de Deus" moço, ajude. Aquele pedido no entanto deixou dfe ser em vão. Vesti no corpo ainda sonolento uma roupa, troquei-me e rapidamente tirei o carro da garagem, fazendo daquele senhor meu guia; nos encaminhamos.
Ao chegarmos, fui recebido pela esposa do enfermo que desordenadamente agradecia minha presença naquele recinto. O vento soprava forte e a chuva tinha dado trégua. Ao abrir a porta, a poeira dançou viroticamente ambiente adentro. Era uma casa fria e doentia, as tintas multiplicavam-se nas paredes indefinindo precisamente qual cor seria; estava repleta de teias de aranha, traças, baratas e o odor clamando por higiene.
Seguimos para o quarto do casal. Lá estava seu José, deitado, o olhar distante, impertubável, era um homem magricela, debilitado, deprimido. Cumprimentei-o e em seguida arregacei-lhe a manga da camisa, tomei-lhe o pulso e aferi sua pressão. 22.0 X 14.0, estava muito alta, dei um tempo e aferi novamente, o tensiômetro não se enganava...
Sentei-me ao seu lado na cama e perguntei se tinha tomado algum medicamento? Sua esposa respondeu: 
- Tomou os dois há pouco, o de pressão e o de coração.
Era cardíaco. Recomendei, então que fosse hospitalizado para melhor ser avaliado, mas ai sua esposa novamente interferiu: "ele estava internado desde da semana passada, e nada de melhora"
- Insisti: O senhor deve ser hospitalizado novamente! Irei providenciar... 
Seu José segurou minha mão, dizendo-me:
- "Não, prefiro morrer em casa, já vivi bastante, estou velho, sem forças, não quero dá mais trabalho".
Era um homem resignado. Dizia-se feliz, cumpridor de suas obrigações e tinha como doutrina o protestantismo. Em seguida pediu-me a bíblia que estava sob o guarda-roupa, abrindo-a aleatoriamente, lendo um salmo. Pedi para que não esforça-se. Fechou-a. Sua esposa trouxe um cafezinho, tomei e voltei a insistir. O senhor tem que ser hospitalizado. Olhou-me mais detalhadamente e respondeu: "Amanhã cedo talvez". Despedi-me.
Acendi um cigarro, fiz a manobra do carro e alguns instantes depois, já encontrava-me numa chuveirada. Em frente ao espelho, ao pentear-me, tomei espanto. Aquele olhar distante submerso de seu José, agora era o meu olhar. Fitei novamente o espelho e como num presságio vi aquele homem morto. Calma, era só um mal pressentimento. Tentei dormir, estava impaciente, não consegui. O dia clareava quando finalmente adormeci. Acordei, passsava das nove horas. Revivi nitidamente passo a passo toda aquela madrugada. Como estaria seu José? Procuraria saber! Ao chegar na farmácia, ainda na calçada, parei para ouvir o carro volante de som anunciar a morte de seu José!


Genésio Cavalcanti
Palmares, hoje e sempre!



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    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

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