Do barro vermelho ao verde das esmeraldas

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
Veja

Meus olhos de criança, guardam a grata lembrança de um tempo, que o próprio tempo, teima em não apagar.
A estrada íngrime, estreita e curva, esbucarada e poeirenta, onde o barro vermelho batido, refletia incandescente aos raios do sol. Quando inverno, o pisoteado lustrava com mais intensidade o embarramento. De muito longe, até onde minha vista alcançava, grande parte daquele percusso, eu atento, observava as pessoas do povo, e como ritual, sentava-me à beira da calçada e ofertava-me o prazer daquele cenário.
Falo aqui, da ladeira do matadouro, nome dado pela circustância da matança de animais e pelo vasto logradouro ali exixtente. Desde seu ínicio de trecho, sob o pontilhão (hoje alargado), sendo cortado pela linha férrea, num trajeto aproximado de seiscentos e cinquenta metros de pura altitude. Passagem obrigatória pela igreja de Santo Antonio (lugar para orações e também para breve descanso), seguindo até conquistar seu ponto máximo de aclive, justamente próximo ao convento da Santa Cruz (hoje desativado), prolongando-se com menos intensidade até o Cruzeiro (onde funciona nos dias atuais, o Mercado Público, agregado a sua famosa feirinha dominical).
Meus ouvidos, apuravam-se ainda mais, quando o rangido da velha carroça de boi, com suas rodas de madeira, à frente, o puxador anunciado a venda d'agua, de quem meus pais, pelo conhecimento mantinham crédito na caderneta. O líquido precioso, era extraído da fonte do Cocão do Padre (talvez o primeiro chafariz da nossa cidade)
Logo às primeiras horas, despertávamos com o apito ensurdecedor do trem avisando-nos da sua chegada.
Lembro-me, ainda, quando cavaleiros faziam finca-pé, montavam no dorso de seus alazães e a cada esporada, atingiam o ápice do galope, chegando a esvoaçar a crina de seus cavalos, fazendo com que a poeira dançasse aos nossos olhos; ora pastoreando os bois desgovernados e enfurecidos, ora ao bel prazer. A estes, seguiam colados como grudes, os vira-latas assustando com seus latidos e fucinhados o povo em geral. Fechávamos, de imediato, portas e janelas, mesmo assim, tremíamos de medo.
Diante da praça de aluguel, das denominadas carroças de burro, víamos éguas e cavalos, serem alimentados com palha e sabugos de milho, para tanto, só bastava retiras deles, as rédeas e os cabriolés.
A verdade verdadeira, é que falo de uma época de coisas arcaicas. Era meados da década de sessenta, mesmo assim, Palmares apesar de todo atraso, já possuía os chamados pequenos fabricos. E eram muitos: de sapato, doces, café,. Logo ali no pé da ladeira, tinhámos uma fábrica de pipocas, de propriedade do Sr. Miguel, com o nome de Rio Una. Depois destes anos todos e de todo progresso, acreditem, nem isso!!!
Minha curiosidade era crescente em poder subir o belo morro, e descobrir o que se seguia, onde minha vista já não permitia. Mesmo com inúmeras negativas de meus pais, eu insistia em pôr os pés metidos em pequenas alpargatas no barro vermelho.
Para alegria e contentamento do meu ego, uma certa tarde, eis que me aparece, tio Pedro. Homem tão belo e tão cheio de vida, exímio mergulhador de sete mares, à busca incessante por tesouros em navios encalhados, em época de conflitos ou submerso pela própria natureza.
Corpo atlético, esguio, rosto belo e olhos verdes como esmeraldas (ao meu ver perfilava-se ao grande galã de cinema, Charlton Heston). Infelizmente, numa destas aventuras, em dever do ofício, o mar, logo o mar, seu maior e melhor amigo, tratou de silenciá-lo para sempre. Diz o poeta: “ É doce morrer no mar...” e completa o outro: “no mar não há caminhos impercorríveis...”
Restando tão somente aos entes, lágrimas e saudades.
Chegou com a alegria que lhe era peculiar, ao volante de furgão, recém-adquirido, insistindo para que toda a família estreasse o tal veículo. Depois de algumas voltas pela cidade, resolveu de pronto, seguir o caminho tão sonhado por mim. Angustiei-me! Pela primeira vez, iria saciar o desejo do inusitado. Pude tranquilamente admirar o longo trajeto, feito todo tempo, em marcha de força.
Ao chegarmos ao seu topo, antigo Campo da Aviação, descendo do automóvel e pisando ao solo escorregadio, parei para escutar meu irmão Mário, menino astuto que só ele, nos seus quatro anos, indagar fanhosamente: “Mamãe, é aqui que é o céu?”.
Assim meus olhos puderam contemplar a paisagem do belo morro e de todo o seu esplendor. Naquele momento, e a partir dali, minha admiração perpetuou-se.

Genésio Cavalcanti
Palmares, hoje e sempre!










Deixe seu comentário

    Obrigado!

    Obrigado!

    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

    Curta Nossa Poesia