Lembranças

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
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É noite. As luzes da cidade ofuscam minha visão. Percorro ruas a esmo, parando em todo canto, são todas minhas velhas conhecidas. Sentindo-me sozinho, pressinto a lua olhar-me desconfiada. O que fazer? Prossigo em silêncio absoluto. Onde ir? Sem direção apenas ando. Neste momento, dar-me a impressão de mutação. Para. Sinto o frio gostoso da noite, invadir meu corpo levemente, soprando ao meu ouvido. Distraído, avisto parceiros de copo. Aproximam-se. Convidam-me para uma rodada. Retraio-me. Hoje, definitivamente não sou boa compahia nem para o bate-papo saudável com velhos conhecidos, muito menos para bebericar. O wisque mesmo envelhecido ou mesmo a cubra-libre, esta noite, certamente não afogaria minhas lembranças, nem confortaria minh'alma. Continuo a botar os pés no batente. Caminho com o pensamento voltado para o vazio. Se pelo menos nesta hora, a mão de afago eterno de meu pai indicasse que rumo seguir...
Acendo um cigarro, ao tragá-lo, sinto o pulso contar as batidas desordenadas de meu coração. Talvez pela ânsia de viver um momento de incertezas. De repente, ocorre-me por segundos, quem sabe poder encontrá-lo. Com ele aprendi a ter serenidade para abrandar impulsos. “A tranquilidade não deve se deixar vencer pela impaciência”. Sábios conselhos, agora de nada me valeram. Sigo minha intuição. Acelero minhas passadas, nada detém me avanço. Chego em um único fôlego.
O lugar é um antigo ponto de encontro de velhos amigos, e de degustação de saboroso cafezinho pequeno de nossa cidade, chamava-se Pavilhão Eldorado.
Como se aos poucos, minha mente voltasse ao passado, imagino revê-lo.
Bem penteado e barbeado, vestido numa camisa de mangas longas, verde oliva com listras largas verde pistache. Jornal e revista embaixo do braço, o cigarro inseparável entre os dedos, rodeado de amigos, observadores, políticos, curiosos e alguns poucos amigos, palestrando contudente.
Era homem de forte temperamento, mas não de brigas,e sim para defender seus princípios, seus ideais. Não deixava nada, nem ninguém sem respostas. Homem íntegro, exatamente pelo caráter, pela altivez, moral; para mim, encarnação de sabedoria e liberdade. Capaz de ceder a contento as armadilhas do coração. Sensibilidade suficiente, mantendo-se sempre sério, amável e respeitável. Dele, recebi o amor que sempre teve por toda a vida à mulher e aos irmãos.
De uma irreverência e sabedoria sem igual. Certo dia, ao perceber a forma como Pedro, meu irmão, filho pródigo de cultura e inteligência ímpar, estava devorando a leitura, interpelou-o: “Pedro, estás comprando livro por metro?”, e Pedro: “como assim meu pai?”. E explicou-lhe melhor. “Um cidadão ao entrar em uma livraria, foi pedindo a bom tom. Quero cinco metros de livros. O proprietário, não entendendo, falou-lhe que ali tinha livros para todos os gostos. De best-sellers, romances, grandes sucessos literários, bastaria percorrer as gôndolas. Não satisfeiro, o cidadão tornou a fazer o pedido, dizendo-lhe que os cinco metros de livros seria para preencher o vazio da nova prateleria adquirida, que media exatos cinco metros”. 
Até parece que foi ontem... relembro dia após dia como você semeava o dom de teu aprendizado, adubando carinhosdamente cada fruto brotado, efeito tão somente de tua semeadura. Assim, alimentaste nossos espíritos com a seiva que nutre e engradece os grandes amores.
O desejo e a necessidade de reencontrá-lo era imensa, por isso mesmo, naquela esquina, nossos olhos cruzaram-se, ao avistar-me, inundou-me de luz e alegria. Foi um breve reencontro. Aproximou-se calmamente, e num abraço sem igual, apertou-me ao peito, derramando sobre mim pequenos raios iluministas. Senti-me alimentado. Curvei-me, beijei-lhe a mão. Pensei até em falar-lhe, optei pela mudez. Por um instante, uma leve bruma pairou entre nós, ao desfazer-se, meu pai havia partido.



Genésio Cavalcanti
Palmares, hoje e sempre!




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    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

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