Eternamente Criança

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
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Os incessantes apelos e gritos de minha mãe, soavam longínquos, apesar de estarmos próximos. Não que eu não escutasse, pois, sou privilegiado em audição, mas porque fazia ouvido de mercador.
Impressionava-me espiar atento, por entre cobogós, a exuberante e viçosa paisagem de folhagens e de diversidades mudas de seu jardim. Do belo casario, de paredes dobradas em forma de arco, circuferindo sua faixada. Fazia fronteiro com nossa morada. Lia-se em letras de fôrma: Casa da Criança Santa Clara (hoje, o centro de treinamento João XXIII). As freiras vestidas com seus hábitos, terços a mão e olhar compenetrado, regimentavam com ordem e disciplina o colégio ali existente, com aulas desde a primeira série primária, até o curso preparatório de admissão, composto por seleto grupo de professoras, do mais alto nível de nossa cidade. Dentre estas, Leta Chaves e Júlia Leite. Mantinha-se regime de internato, porém, mesclava-se o corpo discente de não internas. Era restrito, tão somente ao sexo feminino. Achava-me desprovido de sorte, por lá eu não estudar. Brechava primeiramente, as meninas moças de saias plissadas azuis, à altura um pouco acima dos joelhos. Havia uma especial, onde meus olhos corriam maravilhados. E quando soava a campainha, dispersavam-se rapidamente para as salas de aulas, me deixando com as mãos no queixo. Passava a admirar as árvores frutíferas. Tamarineiras, jatobás, pintangueiras, cajueiros, goiabeiras, coqueiros, pés de fruta-pão verdinhos, não esquecendo as rozeiras, miúdas e graúdas de diversas tonalidades, brancas róseas, vermelhas, corais, rubras, amarelas e lilases. E dos lírios brancos e azuis de grande haste. Eu me sentia afortunado com tamanha beleza e esplendor!
Dia a dia, mês a mês, eu aguardava impaciente a chegada da primavera, e era nesta época que aquele jardim ficava mais bonito. Exalando fortemente o perfume de suas espécimes. A revoada de pássaros era eminente, não tardava e logo surgiam Canários do Império e rouxinós com estralos soltos, com asas de liberdade, já não precisavam mais render cantos a senhores feudais e muito menos para a nobresa do Império. Voavam juntos a curiós, bem-te-vis, azulões, sangues-de-boi, galos de campina, caboclinhos, patativas e sanhaçus. Chegavam também os pardais, estes com fama de predadores, pois, destroem e devastam inconsientemente, obrigando outras raças abandonar seus ninhos, sua proliferação é intensa. Naquela época, a mao do homem não depedrava tão intensamente. Assim, os pássaros cantavam com açoites e dobrados a alegria da liberdade.
Todos os anos, dava-se início no mês de outubro a uma grande festa, e logo aos primeiros dias começava-se as comemorações do Dia das Crianças, estendendo-se até o dia 12 de outubro que era o grande apogeu. A tradicional quermesse mobilizava grande parte da sociedade palmarense, angariando fundos para melhorias do educandário. Além de barracas com comes e bebes, encontráva-mos jogos, pescarias, tabuleiros com roletes de cana, bexigas, tabicas enroladas com plástico de diversas cores, algodão-doce, pipocas quentinhas, pirulitos revoltos com papel, saciando a minha fome com o delicioso cachorro-quente do senhor Malaquias, o melhor de toda região, entre outras coisas mais. Ao longo daqueles dias, eu saboreava as brincadeiras nas andanças de barcos. Empinava-os ao ponto extremo. Corria apressadamente, empurrando as pessoas para ver de perto o repentista Sr. Xexéu, calejado ele e seu pandeiro, embolando pernambucanidade.
Me via imensamente feliz, ao ser anunciado através de alto-falantes e cornetas de som, o momento mais esperado de toda festa. “Senhoras e senhores, a partir deste momento, passamos a apresentar o nosso pastoril, representado unicamente por alunas deste educandáriio”. Num piscar de olhos, eu atravessava todo pátio, pisando fundo, assumia de pronto o lugar mais cobiçado.
Surgia à frente o mestre com seu apito, marcando rítmo e desafiando o melhor cordão. Depois, a Diana com sua roupa metade azul, metade encarnada. Mais atrás a “borboleta”, justamente a menina especial que mesus olhos corrim maravilhados. Chamava-se Maria Goreti, suas pernas grossas e roliças, acendiam em mim as primeiras tentações carnais. Tinha cabelos negros e longos, nas mãos a panderola com fitas exaltando os dois cordões. Me lembro até hoje o dia em fomos apresentados, meu coração quase pula pela boca. Ficamos nos olhando calados, parados, admirados com nossas belezas. Naquela noite, sonhei os sonhos mais lindos e deixei os devaneios apossarem-se de mim. Em seguida, as duas fileiras com as pastoras cantando: “ Sou a Diana/ não tenho partido/ o meu partido são os dois cordões/ Somos pastoras/ pastorinhas somos/ alegremente vamos a Belém.” Ou ainda: ' Borboleta pequenina! saia fora do rosal/ venha ver quanta alegria/ que hoje é noite de Natal”...
Ao fim do espetáculo, as palmas se redobravam.
Era a felicidade do menino, que aprendeu a amar desde cedo os costumes e encantos desta terra.

Genésio Cavalcanti,
Palmares, hoje e sempre!

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    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

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