Reminiscências

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
Veja

                Do quintal daquele casarão, eu abraçava o céu, contava estrelas, namorava a lua. Ali, vivi parte de minha infância e guardo até hoje as melhores lembranças. Era uma casa com vários cômodos. Sua construção arquitetônica já era moderna para sua época: duas amplas salas, seis quartos, dois banheiros, o da família com azulejos decorativos e, uma suntuosa banheira. Sua cozinha, muito espaçosa e arejada com enorme balcão em granito.   Um terraço em “L” e nele um jardim com várias espécimes  de plantas.  Cada canteiro, com sua divisória. Todos muito bem cuidados por minha avó, que fazia questão de sulcar  e misturar  a terra com suas próprias mãos. Plantá-las , replantá-las e aguá-las duas vezes por dia, bem cedinho da manhã e  a tardinha, depois do pôr-do-sol. Ali, sentada em um banquinho, passava horas conversando com cada uma delas, podando e limpando. Aprendi com ela  também a manuseá-las e conhecê-las melhor: viçosas samambaias, roseiras, trepadeiras, antúrios, orquídeas, jasmins, lírios, imbés, hortências, bromélias e ao centro, um altíssimo pinheiro. Nas paredes que circundavam o terraço, eram repletas de louças e porcelanas ornamentais. Em sua maioria, via-se Índios  Caboclinhos com flechas  que simbolizavam lutas e resistências, e que ajudavam a proteger  a casa. Ainda no terraço, havia um balanço de ferro. Nele, todos os dias, embalava  meus sonhos. E cada vez mais eu ia mais longe, até alcançar seu cume. E cantarolava de alegria e felicidade!
                Dentro daquela casa, tudo fascinava-me: os retratos de família, penduradas hermeticamente na parede da sala, dos nossos antepassados, chamavam a minha atenção. Bastava observá-los melhor, e sentia que apesar de mortos, seus olhares estavam  bem vivos,  aos meus olhos, aos meus passos. O lustre da sala principal, de cristal, reluzia nos meus olhos. Penteadeiras, cristaleiras, as toalhas de mesa de renascença, Jarros de fino cristal, relógios grandes e pequenos e de todas as formas. O de pêndulo me chamava a cada hora, com suas badaladas. No canto da sala, reluzia majestoso, o pianoDorner de minha mãe, vindo da Alemanha. Eu podia transitar por toda a casa. Corria desembestado pelos corredores a fazer piruetas e a esbarrar em móveis. Escorregava, caía, levantava e corria novamente, o dia todo, todos os dias. E não parava! Somente, quando à mesa posta. Comia apressadamente, mal terminava e já corria para a rede de balanço, no terraço do quintal e lá ficava a balançar-me esperando meu avô, que ao chegar, cobria-me de afagos e aconchegos. Era um bom homem!   Baixinho e franzino, tinha na mente, a sabedoria dos pensadores, nas mãos, uma força fora do comum. Viveu toda sua vida proporcionando exclusivamente o bem. Era caridoso e fiel aos mandamentos.
                Todos os dias e sempre a mesma hora, da  rede, eu fazia  finca  pé, levantava- me de um único salto e corria para ligar o potente rádio de válvulas  Crosley  AM, que tinha “olho mágico”em ondas curtas e médias, que nos traziam as principais notícias do Estado e do País.  Uma das coisas que me chamava mais atenção, era o último quarto do lado direito da casa: vivia completamente fechado. E por nada, era aberto! Somente minha avó tinha a chave. Era o quarto do meu tio Tenente  Everaldo Genésio, que morrera  em um trágico acidente de avião em nossa cidade. Mantinha sempre o quarto arrumado: cama, guarda-roupa e cômoda. Seus retratos perfilados, medalhas, o fardamento da aeronáutica e sapatos engraxados  impecavelmente. Além do quepe e espada. E foi numa dessas vezes, por descuido dela, que sorrateiramente, descobri para minha admiração e espanto!
Mas para o meu deslumbramento, o que me causava a maior euforia no casarão, era justamente seus dois quintais: da varanda, minha vista alcançava-os por inteiro:  seus coqueiros, pitangueiras, pés de manga, mamão, laranjas baía, goiabeiras, cajazeiro, pés de chuchus, de lírios em flor, orelhas de elefante e cabeças de cavalo. Além de palmeiras, avencas, babosa, bambuzinho, orquídeas vermelhas, brinquinhos de Iaiá, florzinha miguê, madresilva e um frondoso pé de jasmim de laranja exalando um suave e gostoso perfume. Mas era nas bananeiras, que eu marcava com a ponta do canivete, as inicias dos nomes das meninas, que eu desejava namorar.
Daqueles seis degraus, eu lembro muito bem. Degraus de tantas quedas, de tantos tropeções. Era mais que um sonho, era simplesmente, encantador, todas aquelas brincadeiras, algazarras subindo e descendo  batentes célere como um raio. 
                Entre os coqueiros envergados pela natureza, plantei meu coração, adubando-os todos os dias com minhas travessuras, com minhas traquinagens. No mais alto galho da goiabeira, achava graça com a doçura da fruta madura mordida.  Das filuras, a que eu mais gostava, era de plantar “bananeiras”.  Andava com os pés de ponta cabeça e as mãos apoiadas no chão. Descascava bananas, e as saboreava. Era o fruto com tanto amor cultivado pelo meu avô.
                Ainda me dá prazer, lembrar da velha bicicleta (a primeira da nossa cidade, falava minha avó) descia os degraus a todo vapor!  Lembrar daquele caminho estreito, que dava acesso casa-farmácia, eu marcava carreira, a mando de minha avó, e com minha voz juvenil, gritar ininpterruptamente,  dezena de vezes, chamando meu avô para almoçar...
Os encantamentos da natureza, estavam às minhas vistas, soprando aos meus  aos meus ouvidos, e eu contemplava todo o quintal. Contemplava minha avó D. Beatriz, italiana de nascimento, com seus olhos azuis, debruçada na mureta. Tinha o cheiro das plantas! O cheiro das violetas! Certa vez, final da tarde, flagrou-me em cima da escada, brechando  Marinalva (a empregada) tomar banho. Até hoje, não sei como não me esborrachei no chão, de tanto susto...
Eram apenas dez anos de uma vida motivada por um frenético espírito aventureiro! E eu era livre. Livre como um pássaro fora da gaiola, a cantar, a sonhar! Como definir tamanha felicidade? Pedindo ao meu bom Deus que não apague da minha mente, as reminiscências de uma infância recheada de felicidades!

Genésio Cavalcanti
Palmares, hoje e sempre


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    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

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