ZÉ CORDEIRO

Autor: Genésio Cavalcanti Seja Bem Vindo Ao Blog - Ser Poeta : »
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ZÉ CORDEIRO


Lá vem “seu” Zé Cordeiro a passos miúdos e lentos. De repente para na porta da farmácia e me procura com olhos de quem vagueia ao acaso. É uma tarde ensolarada do mês de novembro de 2011. Seu olhar percorre o ambiente a procur
ar-me por entre medicamentos, clientes, além de irmãos (todos muito parecidos) e funcionários. Ao encontrar-me abre um largo sorriso. Aceno para ele e este já encaminha-se com a mão estendida. Minha percepção nunca falha, de imediato pressinto que o homem deve demorar-se por longo tempo, contando-me das suas crendices.
Ante o gesto de cordialidade, sei que terei que ter senso de humor e muita paciência. Não posso e não devo ser indelicado, por isso mesmo, sou todo ouvidos, pacientemente deixo que flua toda prosa de ”seu” Zé, com histórias mirabolantes, como também, de sua boa vivência. Vida regrada na mais absoluta abstinência de safadezas e dos vícios da vida mundana. É uma figura de aparência inconfundível, tanto pelo porte físico, pois é alto, macérrimo, de pele morena escura e de belíssima dentadura alva e formato perfeito. Como também pelos apetrechos que costumeiramente traz consigo. Chapéu Panamá esverdeado com uma pequena pena vermelha ao seu redor, vestido no velho paletó quadriculado ( modelito estilo Ausgutinho Carrara de A Grande Família), coronha (passando-nos a impressão que o defunto era mais baixo), ou talvez tenha ganho quem sabe da “Cheiá Modas”. A calça à altura do peito e nos pés o tênis de número maior, destacando-se o par de meias verdes que combinam com chapéu. Nos dedos das mãos refletem os anéis de níquel, com pedras multicoloridas.
Penso eu: prá que diacho tanto enfeite? Ora essa, recrimino-me em seguida, que tenho eu a ver com a aparência de “seu” Zé? Problema dele. Que seja mais enfeitado que jumento de cigano! Dai, volto a refletir: quem sabe se toda essa indumentária não serve para trazer-lhes sorte como um amuleto, quem sabe!!!
Olha-me de alto a baixo examinando-me e aconselha-me com opinião formada e abalizada de como portar-me diante da vida. Diz que eu renegue sempre o sedentarismo. Sei que irá recapitular alguns diálogos anteriormente conversados. Puro engano! Hoje “seu” Zé veio a nossa farmácia presentear-me com um “elixir da vida longa” (afrodisíaco) por ele preparado. Diz conter no pequeno frasco, gotas preciosas de jovialidade (acho que me acha muito usado). Recebo e agradeço, depois pergunto-lhe sobre a fórmula , rapidamente ele desconversa dizendo não poder revelar para não perder o encantamento do preparo. Pergunto-lhe se posso confiar nesse tal elixir? Seria um engodo? É contundente: “tome e verá!” E logo penso: melhor não arriscar!
“Seu” Zé é um velho senhor de oitenta e sete anos, homem de muitas histórias e muitos causos. Sua maior valia é justamente sua própria história. É um homem íntegro, de pouca educação, porém de vasta sabedoria. Na sua memória não consta nada que desabone sua conduta, acha também que nunca fez nada de errado nesta vida de meu Deus. Nunca bebeu, fumou ou mijou fora do caco. Sem riqueza, tão pouco ambição. Acumulou no calor do sol poente calos e rachaduras nas mãos pela labuta, sempre de estrovenga na mão, no trabalho da roça.
Demora-se mais um pouco com ar de desinteressado, de quem como não quer nada, até saltar-lhe da mente mais uma das suas histórias. Pergunta-me se não está atrapalhando. Respondo que não, e me disponho mais uma vez a ouvi-lo, seja lá o que for tenho que manter a audição apurada para não ser questionado pelo: você está me ouvindo? ou ainda: você me entendeu? Preciso estar atento...
Mesmo sem méritos para tal, descrevo-a.
(?) Era um homem incrédulo, não temia os castigos de Deus, levava a vida a se maldizer pelos cantos da pequena e pobre casa, sempre a se lastimar. Batia com o punho em riste no próprio peito invocando e desafiando o diabo. Até que certo dia, após exaustivamente ser invocado, o diabo apareceu. O homem contou-lhe que já não aguentava mais levar aquela vida de pobreza e muita miséria, que queria ser rico, possuidor de carrões, apartamentos, joias e muito dinheiro. O diabo ouviu toda conversa e falou que poderia ajuda-lo, mas para tal bastava tão somente fazerem um pacto, um pacto de vida. Daria a ele tudo o que lhe fora pedido em troca, o homem teria que gastar toda a fortuna num prazo de quatro anos, caso contrário pagaria a desobediência com a própria vida. O homem topou de imediato; achando aquele pacto recém selado pura banalidade. Os dias passaram e como combinado o homem ficou milionário, sem ninguém entender como teria ganho tanto dinheiro em tão pouco tempo. Comprou apartamentos, fazendas, bons carrões, e quanto mais gastava, mais rico ficava. Entrou pra sociedade, conquistou muitas amizades, apadrinhou muitas crianças, ganhou respeito e admiração. Metade do tempo havia passado. Agora o bilionário quanto mais gastava, mais e mais rico ficava. O homem começou a ficar preocupado, do jeito que a coisa andava não conseguiria gastar toda a fortuna no prazo estipulado. Tentou até enganar o diabo, jogando alguns sacos de dinheiro no Rio Una, ou ainda enterrando outros tantos por trás da prefeitura, na rua do Capim.
Não havia jeito, para sua surpresa no outro dia, foi agraciado com o dobro de sacos, que teria destruído.
Agora só lhe restava seis meses, estava apavorado não comia ou dormia. Confidenciou a um dos seus compadres revelando toda a história. O compadre prometeu ajuda-lo estudando melhor o caso. No outro dia apareceu com a solução: mandou que ele arrumasse uma bela de uma rapariga e comprasse um carro velho. E assim o homem fez.
Faltava ainda dois dias para o prazo espirar, quando o diabo fora novamente invocado, e ao chegar na rua onde morava o riquíssimo senhor, tamanha foi a surpresa, a fila de cobradores teria atingido todo o quarteirão. Tonho Miséria, Sodipe Concept, Lapa Som, Santos Atuali, O Boticário, além do pessoal de postos de combustível, restaurantes, mecânicos, etc. M oral da história: nada como uma rapariga e um carro velho para dilapidar todo um patrimônio, seja adquirido a custo de um pacto com o diabo ou não!
Dei uma longa gargalhada e corri para atender mais um cliente...

Genésio Cavalcanti
Palmares, hoje e sempre!

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    Agradeço por sua presença nessa
    viagem que fizemos juntos...
    Espero outras vezes navegarmos,
    neste mesmo sonho!

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